quarta-feira, 23 de julho de 2008

ALÉM DAS APARÊNCIAS

"Tenho 22 anos, um diploma, um carro, uma boa situação financeira, um bom vigor sexual. Agora só falta explicar a mim mesmo o que significa tudo isso", escrevia um jovem americano, há uns 20 anos atrás, a Viktor Frankl, um psicológo-psiquiatra que viveu estudando o sentido da vida.
Li essa frase e fiquei refletindo sobre a vida... Às vezes a gente sonha tanto em ter dinheiro, em obter objetos caros, em ter um ótimo emprego.. enfim, achamos que só vamos ser felizes quando realizarmos todos os nossos sonhos. Mas, será mesmo que estamos aqui só para isso? Será que isso é suficiente? Será que realmente vamos ser felizes quando obtivermos tudo o que desejamos?
E logo, minha mente me vêm cheia de perguntas sem respostas. Poxa, quem realmente sou, o que eu quero pra minha vida? Onde estão as pessoas que eu amo e que já partiram? Para onde eu vou????
Uma vez, eu estava com meu namorado em uma festa e, do nada, ele começou a fazer essas reflexões. Eu achei que ele tinha bebido além do que deveria e nem dei muita importância, rá. Mas, depois pude perceber que era apenas impressão minha, ele realmente estava analisando as pessoas da festa e se questionando em relação a isso, comecei, a partir daí, a refletir bastante sobre tal, mas depois de um tempo fui esquecendo, levando a vida, sem me dar conta que não estava sendo uma pessoa realmente autêntica. Mas, ultimamente, esses questionamentos voltaram e tem perturbado bastante minha mente especulativa. Sendo assim, resolvi dividir com vocês algumas angústias, que, com certeza, já afligiu e/ou aflige a todos.
Autenticidade. Afinal de contas, o que é ser uma pessoa autêntica? Se alguém me pedir um exemplo de pessoa autêntica, não sei quem eu iria indicar. Realmente, ser uma pessoa autêntica, no aqui e no agora, é o maior desafio. A meu ver, o sentido da vida está relacionado com a opção de vida, o estilo de vida. Não se trata de dar a ela qualquer sentido, e sim um sentido autêntico, capaz de responder aos anseios mais humanos e verdadeiros que estão dentro de nós. Muitas pessoas recorrem à religião para compreender o sentido do ser humano, do presente, da origem das coisas e as perspectivas para o futuro, além de acharem indispensável uma força maior que auxilie na resolução dos problemas e alimente suas respectivas esperanças. Os avanços tecnológicos, por sua vez, possibilitaram ao ser humano o acesso aos mais diversos tipos de informação, vindos dos mais diversos meios comunicativos. Todavia, não significa que isto leve a uma maior consciência. Toda essa velocidade com que se deram e se dão as mudanças, pode, inclusive, ter um efeito negativo, gerando angústias, crises e, conseqüentemente, a um elevado grau de estresse. Muitas vezes, nós nos deixamos levar pela força coercitiva (pressão) e inconsciente da mídia, causando pois, uma superficialidade quando se trata das questões mais profundas da existência humana, num mundo cada vez mais voltado para lógica do mercado, cuja preocupação com a vida praticamente desaparece, visando unicamente o lucro, a preocupação de querer levar vantagem em tudo, situação que acaba sendo transferida para as relações intersubjetivas. A alienação, principalmente entre os adolescentes, é predominante. Somos induzidos a sempre agir para sermos aceitos nos diversos grupos, a agir como os outros querem e não como realmente queremos, mas isso se dá de forma muito imperceptível. Entretanto, temos que enxergar muito além desses discursos ideológicos, temos que ver além das aparências, temos que criar senso crítico, o "ser" de modo algum é possível sem total adesão, consciência, sem uma opção profunda e clara. Desse modo, ou se "é" ou acaba por "tornar-se". Retomando ao pontapé inicial, sei que é impossível responder a todas as minhas perguntas, muitas delas são mistérios. Entretanto, há algo por fazer, que depende de nós, buscar um sentido para nossas vidas, sendo uma criatura humana que cresce em todas as dimensões, consciente do lugar de onde se fala, para além do tempo, projetando a vida na expectativa de que, ao chegar ao final da caminhada terrena e olhar para trás, alegremente se possa dizer: viver não foi em vão.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

FICAR


Ficar!
Palavra, atualmente mais utilizada entre os adolescentes e jovens brasileiros.
Para os pais dos mesmos, pessoas que vieram de outra geração e tiveram uma adolescência muito reprimida, o hábito de ficar os deixam atordoados, sem saber se é uma boa ou não. Ao mesmo tempo em que acham um ganho dessa nova geração - o fato de poder externar o desejo, de abraçar e beijar um ou outro numa festinha entre amigos-, dá-se também uma sensação de vazio pensar em trocar carinhos com gente que nem mesmo sabe-se o nome. Os adolescentes, em sua maioria, acham caretice da parte deles.
Ficar é um código de relacionamento característico dos grandes centros urbanos. No ficar, o objetivo principal é a busca do prazer, o prazer imediato. Está implícito que não existe nenhum compromisso. Vale o "aqui e agora", a satisfação pura e simples de um desejo. Você pode usar o ficar pra arrumar um namorado, como válvula de escape para a solidãoou ainda para beijar alguém em uma festa se estiver com vontade. O ficar pode ser praticado com milhões de variações, envolvendo ou não a relação sexual completa.
Vamos sair um pouco da teoria e saber o que os jovens (meninos e meninas) acham do FICAR.

É super natural você chegar numa festa e querer ficar com um garoto, beijar ele e depois nunca mais ver. é liberdade total. Eu adoro ( Elisa, 16 anos)

Se você fica, fica, fica com um monte de gente, você acaba se tornando popular. Mesmo que você seja horrível, todo mundo fica, entendeu? Mas se você não fica com ninguém, mesmo sendo bonita, ninguém te liga. ( Lara, 13 anos)

Eu tenho 16 anos e nunca fiquei com ninguém. Morro de vergonha e quando digo isso ninguém acredita. Agora que eu mudei para um colégio mais liberal e arrumei amigas, pode ser que eu melhore. (Camila, 16 anos)

Menino só quer ficar, passar a mão e tirar um sarrinho, sabe? acabou eles não querem mais nada. É díficil encontrar um menino que namore legal. (Penélope, 14 anos)

A gente nunca sabe se a garota vai querer ficar com a gente. Então joga o maior charme para ver se ela aceita. Se ela aceita já é uma grande vantagem. (Renato, 16 anos)

Ficar é o ínicio de tudo. A gente fica mesmo é no beijinho, no abraço, às vezes deixa passar a mão, mas poucos vão para cama. Não é uma coisa sexual carregada. (Maíra, 16 anos)

É muito mais fácil você se entregar um pouquinho a várias pessoas. Se não der certo, sempre sobra alguém. Enquanto que, se você se apaixonar por uma só e não der certo acab ficando sozinho. (Paulo, 15 anos)

O homem que fica é o garanhão, a mulher que fica com todo mundo é resto, o lixo, ninguém vai querer. (Pedro, 15 anos)

A mulher que a gente quer casar é aquela que não fica. (Tadeu, 15 anos)

Qual é o limite para a garota não ser chamada de galinha? O limite não existe. O que existe é que a garota tem que ter respeito por si mesma e isso ela tem não ficando com qualquer um. (Marcos, 17 anos)

Antigamente você via o homem comendo a mulher com os olhos, agora a mulher faz a mesmíssima coisa. Você vê inclusive que hoje as mulheres estão tomando a iniciativa muito mais que os homens. ( Paulo, 17 anos)

Na minha vizinhança tem uma garota que é a famosa corrimão de quartel. Todo mundo passa a mão e depois fica sacaneando. (Flávio, 17 anos)

Não é pegar na esquina. Você pode até ficar com alguém que não conhece, mas pô, tem que sentir alguma coisa na hora. Senão não tem nada haver. ( Mauro, 16 anos)

Eu acho muito mais graça você namorar do que ficar. Primeiro a gente fica pra ver se gosta e depois namora. (Ana, 17 anos)

Eu tenho amigos que falam que eu e minhas amigas somos muito assanhadas. é rídiculo. Por que a gente tem que ficar esperando? o negócio é se aproximar, ir amansando, batendo papo. Quando vê, o garoto já ficou com a gente. (Lia, 14 anos)

Eu tenho uma amiga que bebeu muito e ficou com um garoto. No dia seguinte eles se encontraram, o garoto chegou e falou: "Oi, tudo bem?" e ela nem sabia quem era. Aí, quando ele virou de costas, ela reparou que ele tinha uma bunda perfeita. Ficou boba e ficou com ele de novo. (Letícia, 13 anos)

Eu não gosto mais de ficar. Já passei dessa fase. Quando conheço uma pessoa e me interesso, quero saber logo se tem algum futuro. Já tenho a intenção de namorar. Quando a gente fica com muita gente, descobre que está mesmo é sozinha. (Fernanda, 13 anos)

Ficar é algo extremamente físico e não envolve o lado emocional, a sensibilidade e o carinho entre as pessoas. (Mara, 16 anos)

Tem um monte de garoto que fica inventando que você fez um monte de coisas e às vezes você não fez nada. (Cláudia, 16 anos)

[entrevistas retiradas do livro UM LANCE QUE ROLA de Lucia Rito]

(...)
Com esses depoimentos pode-se observar que o ficar acontece com mais frequência no grupo adolescente. Eles dizem que uma das vantagens do ficar é que dessa maneira eles resolvem, em parte, o medo de se machucar, de se envolver e não ser correspondido. A visão machista ainda é predominante quando se fala de relacionamento. Embora pareçam super descontraídos, preguem a rebeldia e a derrubada dos valores mais tradicionais, os adolescentes ainda são muito machistas em seus comentários. Outra constatação: ficar proporcionou para as meninas uma espécie de igualdade com os homens na busca do prazer. Entretanto, as mesmas, procuram pessoas com um poco mais de experiência ou até amigas mesmo, para saber até onde podem ceder com os namorados - o limite da decência. Revelam seus medos: de serem tachadas de galinhas, ou virarem corrimão de quartel.
Embora aplaudam algumas atitudes dos filhos, os pais mais liberais, não negam a preocupação quando pensam na facilidade com que seus filhos se relacionam. Eles percebem que a questão sexual não é primordial como foi para as pessoas que estão na faixa dos quarenta e tiveram que brigar por ela. Hoje tudo ficou mais fácil. Mesmo com as mudanças no comportamento sexual dos adolescentes, os sentimentos continuam atemporais. Todo mundo sente ciúme, inveja, amor, ódio, e é comum, depois de ficar duas ou três vezes com a mesma menina, pintar vontade de namorar.